sexta-feira, novembro 23, 2007

A influência política nos mercados financeiros

A INFLUÊNCIA DA POLÍTICA NOS MERCADOS FINANCEIROS
por Rodrigo Constantino

O poder dos políticos é enorme em relação aos mercados financeiros. Num mundo onde os governos chegam a arrecadar metade da riqueza gerada em forma de impostos, dita as regras dos mercados nos mínimos detalhes, controla uma burocracia onipresente e cria inúmeras barreiras protecionistas, parece óbvio que os impactos indiretos nos mercados financeiros são absurdamente elevados. Mas este texto irá tratar de um caso específico e mais recente, que permite uma influência grande e direta nos mercados por parte de poucos políticos: o acelerado crescimento das reservas sob a gestão dos países emergentes.

De forma bastante resumida, temos que o despertar do dragão chinês, aderindo parcialmente ao capitalismo global, e uma profunda revolução tecnológica e financeira mundial fizeram com que a economia global experimentasse anos seguidos de forte crescimento. O caso chinês é especial pela sua magnitude. Com o afrouxamento do controle centralizado e uma gradual abertura econômica, a China vem mostrando um crescimento de dois dígitos faz tempo. Isso tem pressionado muito o preço das commodities, já que a China é grande importadora da maioria desses produtos. Um exemplo típico está no petróleo, que a China, maior importadora do mundo na margem, tem pressionado para cima, fazendo o preço do barril ultrapassar os US$ 90. O mesmo vale para o minério-de-ferro, beneficiando a brasileira CVRD. Em geral, o crescimento econômico puxado em boa parte pela pujança chinesa fez o preço das commodities disparar nos últimos anos. O CRB, índice composto por várias dessas commodities, praticamente dobrou desde 2001.

Um dos resultados disso é o fato de que os países emergentes, normalmente exportadores de matérias-primas, têm acumulado muito dinheiro em reservas. A Rússia, grande exportadora de petróleo e gás, já possui mais de US$ 400 bilhões em reservas internacionais. O Brasil conta com mais de US$ 160 bilhões. Os países árabes sentam em cima de uma outra pilha bilionária de dólares, cada vez maior por causa do aumento no preço do ouro negro. O Goldman Sachs estima que, desde 2001, os países importadores de petróleo já transferiram um valor adicional de US$ 3 trilhões para os produtores de petróleo, por causa do aumento de preço. A própria China, que apresenta um superávit crescente pela sua competitividade no custo de mão-de-obra aliada a uma moeda artificialmente desvalorizada, já tem quase US$ 1,5 trilhão em reservas. A Índia, que vive algo similar, aproveitando sua elevada competitividade no setor de serviços, possui mais de US$ 200 bilhões em reservas. Em resumo, países emergentes, ainda sob forte controle estatal, são detentores de trilhões de dólares em reservas cambiais. A decisão de poucos políticos e tecnocratas desses países pode influenciar tremendamente o rumo dos mercados.

O bom funcionamento dos mercados depende da interação de milhões de indivíduos em busca dos próprios interesses, tentando maximizar suas utilidades de forma racional. Será que esta premissa continua valendo quando alguns poucos políticos, por interesses que não são econômicos, direcionam bilhões através de uma canetada? Quando Warren Buffett decide apostar numa moeda, numa ação ou num título de governo, com certeza ele leva em consideração todos os riscos e benefícios esperados na aposta. É evidente que indivíduos e investidores do setor privado erram, e muito. Mas o funcionamento dos mercados é infinitamente mais eficiente quando estes investidores tomam suas decisões com base nos fatores econômicos conhecidos. Além disso, são tantos investidores e especuladores buscando acertar que os erros de uns acabam compensados pelos acertos dos outros, ao longo do tempo. Excessos irão ocorrer, sem dúvida. Movimentos de manada são comuns nos mercados financeiros, cujo contágio psicológico ocorre com alguma freqüência. Mas nada disso se compara ao risco de um poderoso político, interessado apenas em questões políticas, ter o controle sobre bilhões de dólares para alocação.

Por isso os mercados reagem tanto aos comentários desses políticos. Quando um oficial do governo chinês afirma que considera o dólar uma moeda sob forte ameaça de perder valor, vários investidores correm para comprar euros. Faz sentido: o governo chinês, resolvendo diversificar suas reservas e reduzir a parcela em dólares, pode afetar razoavelmente seu preço. A decisão desses governos não necessariamente é econômica. Muitas vezes é uma estratégia geopolítica. Hugo Chávez, por exemplo, controla bilhões de dólares oriundos do petróleo venezuelano, e todos sabem que as decisões de alocação desta montanha de dinheiro têm sido puramente políticas. As compras de títulos do governo argentino, investimentos no Brasil (inclusive no nosso carnaval), e compras de jatos militares são provas disso, mostrando que o caudilho busca apenas mais poder político na região. Alguém consegue acreditar que o líder do Irã, Ahmadinejad, toma decisões razoáveis na alocação dos seus petrodólares? Um país repleto de petróleo investir tanto no enriquecimento de urânio não parece ser uma decisão racional do ponto de vista econômico. Claro que no fundo o governo iraniano deseja ter uma bomba atômica, algo que não ajuda em nada a economia mundial.

Os exemplos não acabam aqui. Dubai tem investido bastante em turismo, mas com certeza não parece fazer muito sentido construir uma enorme pista de ski artificial no meio do nada. Putin tem feito de tudo para manter seu poder na Rússia, assim como o poder da Rússia nos países vizinhos, e uso como arma para tanto seus recursos naturais. Até mesmo o Japão, que conta com quase US$ 1 trilhão de reservas, sofre pesada influência de poucos políticos, já que o Ministério das Finanças é quem investe a maior parte dessas reservas. O meio político sempre irá contar com menor transparência e responsabilidade pelas decisões, pois o dinheiro é da “viúva”. Os incentivos simplesmente não são adequados, e a corrupção é sempre um grave problema.

Para concluir, entre as várias mudanças que o mundo vem experimentando nos últimos anos, essa transferência de poder econômico do setor privado para o setor público, particularmente para os governos de países emergentes, é algo que deve ser monitorado de perto. Não resta dúvida de que esse maior poder político nos mercados financeiros aumenta os riscos de distorções nos preços dos ativos. Afinal, ninguém em sã consciência iria escolher Chávez como gestor de portfolio em vez de Buffett.

http://rodrigoconstantino.blogspot.com

Publicado em 10/11/2007

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